quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

#7 - S/título (Luís Veiga Leitão)

De Atenas a caminho do cabo Sunion.
Uma luz que se toca (à semelhança da claridade algarvia), luz que é pólen nos dedos -- como flor que se abre à flor das mãos. E uma estrada ao longo da costa mais recortada que gráfico, se possível, duma angústia sem remédio, duma tortura que não acaba.
E, no entanto, bela. A beleza que o mar, no seu artesanato de formas, lhe deu e dá. A forma e a cor. Uma cor rente apenas. Água polida de espelho, verde vidro ali, violeta mais além, até se perder, ao fundo, no azul carregado de todas as águas. Num volte-face, porém, o solo é quase pedra, calvo, branco, ósseo, como que ruminando uma secura eterna. Daí, outrora, um fio, um cabelo de água corrente, era uma divindade. Árvores -- nem vivalma ou muito ralas. Vegetação que do pedregulho se nutre. Cactos e outras vidas de baixa condição.
Focinhos plantados no ar, dois burros imóveis. De carne ou de pedra? burros e cabras povoam a solidão áspera das montanhas gregas -- oitenta por cento do seu território. E mulheres de escuro, acocoradas na berma da estrada, vendem figos roxos; tal e qual as suas irmãs, também de escuro e a vender fruta do tempo ao estrangeiro que, pela estrada da Guarda, vem e volta por Vilar Formoso.




Livro de Andar e Ver, Lisboa, A Regra do Jogo, 1978, pp. 57-58.
Nota: o olhar sinestésico em palavras sempre bem medidas dum poeta, num fragmentário livrinho de viagens, entre o Douro e o Mediterrâneo.

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