quarta-feira, 3 de agosto de 2016

#3 - A "ESPANHA" DE ANTERO DE FIGUEIREDO (Rebelo de Bettencourt)

Esta «Espanha» de Antero de Figueiredo, não é a Espanha dos espanhóis nem a Espanha que nós vemos. É a Espanha que Antero de Figueiredo vê através da sua emoção de artista e da sua saudade portuguesa. Não é um livro de viagens comuns -- é um livro de viagens dum coração que vibra «ante a beleza novidade exposta aos olhos viandantes» para aprender a sentir melhor, com mais fina ternura, a beleza «bendita e louvada da terrinha de Portugal».

          Fui à França e «não» voltei francês;
          Fui à Espanha e «vim» português.

Depois das suas admiráveis «Jornadas em Portugal» -- Antero de Figueiredo escreve a «Espanha», que não é mais do que a continuação desse livro.
Na verdade a «Espanha» é a segunda parte das «Jornadas em Portugal». É a mesma emoção que aquece as páginas desses dois livros; é a mesma «paisagem interior» que nós vemos diante das duas paisagens -- a portuguesa e a espanhola. O próprio Antero de Figueiredo é quem nos vem confessar a sua sensibilidade nacionalista, primeiro com um terceto da «Corte da Saudade» de António Sardinha:

          Em todo o mundo há terra portuguesa,
          desde que a alma a tenha na lembrança
          e a sirva sempre com fervor igual,

depois com as palavras saídas da sua pena, dizendo-nos que «continua a ser, neste novo livro de «Jornadas» um faccioso português que viaja na sua terra, ainda quando viaja mais na linda terra alheia».
Antero de Figueiredo é um dos mais altos e mais belos prosadores, no melhor e mais nobre sentido. Não escreve mecanicamente, alinhando palavras mortas, que são sempre mais belas aos nossos olhos do que aos nossos sentidos. Para Antero de Figueiredo, escrever é sofrer a comoção de um povo, que é o nosso. Cada palavra portuguesa é um ser vivo, arrancado, a sangrar, do nosso próprio ser, morrendo... Em cada palavra da nossa língua está um pouco de nós -- não o nosso corpo, mas a nossa alma, e se não a nossa alma, a nossa dor... A palavra portuguesa é o nosso corpo imortal, porque é espírito. O corpo em que a nossa alma vive aprisionada e escrava -- morre e apodrece, é barro e torna-se em cinza, e a cinza em nada... O nosso corpo é pó, que a nossa alma agita por instantes, na frágil e curta vida, para ser arrastado mais tarde, na morte, pelo vento -- que talvez seja a alma das coisas...
Mas o corpo da palavra não morre, nem apodrece, nem o arrasta o vento. Nasce para não morrer. Não é argila, nem é carne, embora, como em carne viva, dentro dele se ramifiquem veias, e dentro das suas veias se ramifique e palpite, com o calor duma brasa, sangue vermelho, o nosso sangue, a arder na brasa da nossa dor.
escreve bem português -- não quem for procurar com cuidado e arte, aos nossos dicionários, as palavras mais belas, mas quem for buscar, numa hora alucinada e inspirada de sofrimento e tortura, ao coração da nossa língua, as palavras mais sentidas, aquelas que a nossa comoção inventou e sofreu.
Porque é que quase todos os livros morrem e esquecem, logo que morrem os seus escritores? Porque foram escritos e pensados com as palavras dos «dicionários», e se muitos deles o não foram, foram somente molhados com uma emoção «pessoal». Só ficam os livros em que as palavras não foram rebuscadas «materialmente» nos catálogos, mas aquelas que foram procuradas «espiritualmente» na alma e na emoção do povo.
Cada palavra é um ser vivo e perfeito, com uma alma lá dentro: a nossa. Amemos por isso a língua portuguesa -- espírito gentil da nossa raça, e amêmo-la enternecidamente, como a nós mesmos se como o nosso mais rico e sagrado património, porque cada palavra que desaparece é um pouco de nós mesmos que vai também morrendo.
Dos prosadores que eu mais amo, por neles, em cada palavra sua, sentir Portugal -- no povo, na dor e na paisagem -- são Afonso Lopes Vieira, em que cada palavra é um ritmo, e cada ritmo o eco duma voz; Aquilino Ribeiro, em cujas páginas, ora cruéis e amargas, ora alucinadas, ora líricas, tumultua e delira, escaldante, o sangue sensual, perverso, bravio, mas humano, da gente da Beira; Carlos Malheiro Dias, continuador, mas com outro estilo, da elegância de Eça de Queirós, e Antero de Figueiredo que acaba de completar e apurar todas as suas faculdades de prosador e toda a sua sensibilidade portuguesa.. Escrever português não basta. É preciso que dentro de cada palavra se sinta a nossa alma lusíada. Mesmo na mais pequenina palavra deve sentir-se sempre um bocadinho de Portugal.
Antero de Figueiredo escreve para os nossos ouvidos e para a nossa alma. A sua prosa perturba-nos, enleva-nos, com a música das palavras e com o «interior» dessas palavras. Ler as páginas desta adorável «Espanha», em que perante a beleza enlevadora e alheia, se sente sempre a saudade de Portugal -- é pôr o ouvido na nossa paisagem e ouvir, comovida e estranha, a voz do nosso povo.
Dois trechos de «Espanha» maior alvoroço, inquietação e doçura puseram a minha sensibilidade: -- «A Vala dos Mortos», em Roncesvales, e a procissão do «Viático» que Antero de Figueiredo viu, do terraço dum solar.
«A vala dos mortos» é uma página alucinante. Fialho, que escreveu a «Ruiva» e «Os Ceifeiros», se fosse vivo, invejá-la-ia. Alucina, esmaga-nos, enche-nos de terror e espanto. Perturba e domina. Quando acabamos de ler essas páginas formidáveis -- sentimos a nossa alma amarfanhada, contorcida de pavor misterioso.
a Procissão do «Viático», numa noite calma e enternecida, põe uma nota de ternura a religiosidade no nosso coração. Antero de Figueiredo enche de poesia e perfume essas páginas do mais puro lirismo. Mais do que nunca Antero de Figueiredo é o escritor português, porque o escritor dum povo é sempre o seu intérprete. Pela pena dum escritor deve passar sempre a voz da sua gente. E é a alma da nossa gente, é a «terrinha» louvada e bendita de Portugal -- que nós sentimos vibrar perante a beleza alheia. 

A Vida das Imagens, Lisboa, Ressurgimento, 1928.

Nota - Nacionalismos à parte, trata-se de uma esplêndida crónica de Rebelo de Bettencourt, homem do Portugal Futurista, mais tarde abraçando o nacionalismo mais conservador e católico, tal o de Antero de Figueiredo. A exaltação da palavra é absolutamente extraordinária: «Cada palavra é um ser vivo e perfeito, com uma alma lá dentro: a nossa.»

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