quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

#7 - S/título (Luís Veiga Leitão)

De Atenas a caminho do cabo Sunion.
Uma luz que se toca (à semelhança da claridade algarvia), luz que é pólen nos dedos -- como flor que se abre à flor das mãos. E uma estrada ao longo da costa mais recortada que gráfico, se possível, duma angústia sem remédio, duma tortura que não acaba.
E, no entanto, bela. A beleza que o mar, no seu artesanato de formas, lhe deu e dá. A forma e a cor. Uma cor rente apenas. Água polida de espelho, verde vidro ali, violeta mais além, até se perder, ao fundo, no azul carregado de todas as águas. Num volte-face, porém, o solo é quase pedra, calvo, branco, ósseo, como que ruminando uma secura eterna. Daí, outrora, um fio, um cabelo de água corrente, era uma divindade. Árvores -- nem vivalma ou muito ralas. Vegetação que do pedregulho se nutre. Cactos e outras vidas de baixa condição.
Focinhos plantados no ar, dois burros imóveis. De carne ou de pedra? burros e cabras povoam a solidão áspera das montanhas gregas -- oitenta por cento do seu território. E mulheres de escuro, acocoradas na berma da estrada, vendem figos roxos; tal e qual as suas irmãs, também de escuro e a vender fruta do tempo ao estrangeiro que, pela estrada da Guarda, vem e volta por Vilar Formoso.




Livro de Andar e Ver, Lisboa, A Regra do Jogo, 1978, pp. 57-58.
Nota: o olhar sinestésico em palavras sempre bem medidas dum poeta, num fragmentário livrinho de viagens, entre o Douro e o Mediterrâneo.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

#6 - S. JOÃO D'ARGA (Ruben A.)

S. João d'Arga -- 28 de Agosto.

Há anos tinha lá uma promessa. Mais cedo, mais tarde, obrigava-me a meter pela serra acima de avanço até àqueles penhascos, irmãos do outro mundo onde pousou no encanto a capela de S. João. A festa em honra do santo de Arga é uma coisa única no país -- e é assim por muitas e variadas razões.

Este ano aventurei-me à minha promessa. Preparei o breviário. Um dia passado na montanha, noite alerta, regresso pela madrugada.
Vai-se de automóvel até S. Lourenço da Montaria, depois à pata. Daí à capela, na arga de S. João, são bem umas três horas de subidas em caminho -- é uma aventura paleolítica onde todos os minhotos vão levar o sal das promessas, ou o amor dos corações. Estão na Idade Média. Todos os anos o 28 de Agosto é corrido a carpir e a borgar naquelas alturas. Há missa procissão joelhão foguetório festeiros mordomos cidra barracas de comes comunhão vinho a rodos sermão em grande estilo. É uma romaria servida em pele e osso, sem ingredientes de V. Ex.ª ou fidalguias de Dom. Do Alto Minho vai tudo -- saem de casa à noitinha para lá estarem de madrugada. Para muitos são nove horas a pé por mau caminho, se pensarmos que a romaria é bem popular na margem esquerda do Lima -- em Mazarefes, Deocriste, Subportela, Vila Franca, Barroselas e nos contrafortes da serra de Arga, na parte ao norte que vai de Caminha a Perdes de Coura. Pedra a seguir a pedra.
À saída de S. Lourenço é uma subida enviesada entre pinheiros cabeça marrada aos pés, romeiros vestidos de animais, patas são quatro, sobe-se de gatas, voltar atrás é perder o equilíbrio. A cada aberta da Natureza chapa-se um clarão entre dois cocurutos de pinheiro; na sombra, uma mulher encostada ao pipote oferece cidra. Os sequiosos bebem. A cidra fervida, fresca, amacia as goelas emperradas. Sobe-se mais, ainda completamente embrulhado em pinheiros, raro se descortina um palmo à rota de estibordo ou bombordo, é tudo caruma, mato e uma fileira de formigas humana: para cima e para baixo, ritmo silencioso de cruzar padre-nosso de olhos magros, rezando mais ave-marias. O extraordinário é que está sempre gente a subir e a descer qualquer que seja a hora, desde o dia 28 pela madrugada do dia 29 já noite fora. Sobe-se sempre, parece uma humanidade transportada em  bandos de funicular nacional. O momento está a chegar, fora dessas montanhas de pinheiro espesso começa o planalto de pedras, pedras desde o princípio do mundo, pedras poemas, sabendo que são pedras, pedras sim. -- A luz está cinzenta, se estivesse céu limpo era um esfolar de corpos correndo riachos de suor. Chega-se ao fim do planalto e vê-se a Ribeira Lima, o alto da cidade de Viana, descortina-se Âncora com o pinhal da Gelfa de sentinela alerta. É um espectáculo cinzento ao pé, quase verde nos longes. Começa agora nova subida por melhor caminho, a cabeça vai baixa, o pensamento desloca-se para S. João de Arga -- as formigas sobem e descem em loucura penitente --, o nosso rancho aumenta-se de uma Tia  de S. Salvador da Torre e de três pequenas do Orbacém acompanhadas do maior patusco das redondezas. Sobe-se, aqui uma fonte. De água ficamos satisfeitos como diz a boa da Tia, que traz promessa anual ao santo -- e descalça é que é -- mostrar ao Santo que se tem um respeito descalçado, nada de familiaridades. O Santo é bom para os aleijões, pernas, cabeças, costelas partidas de bichos e de homens -- é Santo grande de efeitos milagrosos osteológicos. Melhor que todos os endireitas da região e mais sábio de que o da Esperança. Cá vamos subindo, sempre subindo, subindo de cabeça baixa olhando para esta pré-história tal qual. Chegamos finalmente ao alto depois de lutas e contracurvas perigosas sem resguardos. Todo o trânsito se respeita, é um trânsito religioso, penitente, de boa promessa. Cheiro o ar, abro mais as narinas viradas ao vento predominante, está leve e sem mais nada, é um ar cheio de ar onde o puro se encontra com o mais puro, vejo transparências de beliscaduras a respirarem-se melhor. O ar está o que é, e a montanha agasalha-se de mantos diáfanos de ar. Tudo é pureza transparente, pedras de musgo, pedras limpas, pedras cor de sardanisca.
Passam formigas de cestos brancos à cabeça -- merendas de frango e cabrito. Sobe-se mais, cá vai o nosso rancho acariciado pelo transporte colectivo do 29. É o 29 quem leva parte da carga. É um génio o 29. Coveiro enterrador da Junta de Freguesia de Carreço com falta de mortos lança mão dos vivos. Faz tudo, é um destes seres privilegiados como só existem em Portugal. Tem duas vacas, quatro borregas um cão e três gatos para comerem os ratos que se alimentam no curral. Trabalha como mouro desde a noite antes do dia até à noite depois do dia. Faz tudo, deita a mão a tudo, atende às crias, cuida das vacas paridas, oferece assistência. Quando tira o sargaço do mar, ninguém lhe leva a palma. No entanto, dizem os entendidos, a enterrar é que ele é mestre, faz com uma arte e rapidez que a freguesia antes de orar os responsos já está com a alma encomendada para o próximo. Venha outro morto se quer aproveitar, ele está com as mãos na massa. É das melhores almas que se habitam no Norte de Portugal. Não conheço ninguém que trabalha a enxada, o redenho e a pá dos mortos com tanta perícia, dureza e seriedade. Pedra acarinhando pedra.


Puxa mais para cima! Já levamos duas horas bem andadas de subida íngreme. Dá-me a impressão de que tenho o sangue todo nos pés. -- À volta de nós a serra de rochas, pedras, pedras a dormitar, não chegam a senti a comichão que lhe fazem estas formigas escarafunchosas. Passam mais ranchos -- estes minhotos são como gatos de sete foles. Trabalham sempre, quase não dormem no Verão e borgueiam quando os santos fazem anos. Vão a dançar e a cantar como quem chupa caramelo. Eu, de língua de fora, pareço um perdigueiro depois de ter deixado as perdizes voar para outra fraga, lá nos fundos. Ainda se sobe mais, este caminho não é para funcionários públicos nem para comerciantes estabelecidos em casas de bancos ou de latoaria, menos para ministros -- é um caminho de poetas, caminhos de pedras. Como esta gente é poeta! -- Há uma alegria própria no cantar, aberta, convidativa ao amor, granito polido pelos versos. Continua tudo cinzento, excepto as formigas e uns verdes humidados por nova fonte. Pedregulhos ancestrais escondem o resto das formigas e outros mistérios mais íntimos de promessa. A Tia conta a tragédia a toda a gente, transporta tragédia de arromba -- e às carradas. Tinha três filhos e já não tem nenhum -- fiquei com o gato, e vendo sardinha, pronto. A vida resumira-se para ela. Acabou. Cá vai connosco. Há uma mulher que passa e lhe pergunta se eu sou filho dela -- tem a sua cara, isso é que é -- e ela de lágrimas nos olhos responde: -- Os meus já lá estão -- eu não conheço este filho. «-- Olhe que ele tem as suas sobrancelhas! E a penca é por uma peninha».
«Tatá. Adeus cá vamos, o santo está à nossa espera e eu assim não me arrumo». Outro planalto, outra subida mais estreita, a serra, mais aberto o céu e a língua mais saída, mais baixa. Ali não se depara com dez reis de coisa: só o isolamento. Andamos, caminhamos sempre em frente de batida rápida no córrego semidiabo, semideus. Tudo no mesmo ritmo, tudo a palmear. Chegámos ao alto, alto que fica encostado ao céu -- céu e as narinas abriram-se entusiasmadas pelo bufar. Tudo virgem. Agora, daqui ao S. João, é uma boa meia hora a descer e lá daquele fundo já se vê a capela. Assim foi, passados cinco ou dez minutos, pela garganta do desfiladeiro, à direita, a meia altura, João de Arga estava em festa. As primeiras árvores da montanha -- oliveiras, carvalhos de uns quinhentos anos e uma grande muralha que faz pensar que a capela deve estar entremuros. À nossa volta mais formigas, no ar o fumo dos petardos a anunciarem a saída da procissão. Pedras só pedras.
A genuína promessa é descer de joelhos, desde esta primeira rocha de onde se vê a capela, até lá baixo ao altar onde está S. João. São oito a dez horas de joelhos em sangue. Passamos por várias promessas em funda penitência, de pernas e joelhos massacrados. É de meter medo o poder de sacrifício da fé. Se houvesse caminho aberto, ainda era fácil, mas assim, aos pequenos saltos de joelhos, é já do outro mundo. Avançamos de facilidade, a descida sobre S. João é bela com o regato a espelhar e o rio Minho de Santa Tecla e tudo mais ao norte. É supino. Meto a língua para dentro. Começo a dar ao rabo. Contente. A minha promessa estava cumprida, era só entrar na capela, agradecer a S. João.
Pusemos arraial na encosta, pedra ao pé de pedra. Lá fomos entre o formigueiro. A capela é mesmo viva pelas coisas de pedra colorida e pela situação escondida do altar-mor. Tem uma estátua do Santo Miguel a cutilar o Senhor Diabo que é uma maravilha. Todos entre Lima e Minho têm respeito ao Senhor Diabo, e os romeiros levam esmola ao Senhor Diabo para ele estar quietinho. Nada de obras do Diabo! O Senhor Diabo merece toda a consideração. Deitei lá umas cinco coroas para não ter nada com as iras e más disposições do Senhor Diabo.
Por cima da entrada da capela-mor há um baixo-relevo policromado representando o baptismo de S. João. De maravilha a igreja está em festa com duas bandas de música, os Atrevidos de Freamunde e a Banda Marcial do Couto da Labrega. À volta, um arame para separar os penitentes dos que já cumpriram as promessas; 379 voltas de joelhos à capela, num murmurar baixo as rezas quentes do rosário, já a contas no último terço. O padre fala, a banda toca, uns dançam, outros bebem, outros comem, outros rezam, outros dormem, outros gritam -- é um quadro estranhíssimo quase nas raias do brueghelesco. Sinto fome, uma fome viva com cheiros de salpicão a entrar nas goelas. Abanco na ravina, inclino-me a baixa o olhar sobre o rio e no espreito de uma luz quase cheia, devoro a carcaça de centeio. Rasgo a dentuça ao longo das cavidades do chouriço da Riba de Âncora, e enterro o gasganete num quartilho de branco que me chama a confessar os pecados. Os da carne são todos iguais, os cá da cachimónia é que variam de temperamento para temperamento. O que é preciso é ser-se grande perante Deus, dizia na velha capela das Amoreiras  um padre chato e resmungão que ao mundo deixou esta bela frase; -- Grande perante Deus! --, neste momento aproximo-me divinamente. Atrombo mais chego à verdade da gula e paro, sinto vaidades, devaneios a pairar ao encontro de outrora. Como se mexem os meus petardos alucinados pela crueldade do sofrimento espiritual. Não há dessas coisas em nossa terra, mais vinho, menos comida, mais pedras, é o que há juntamente com umas rezas bem a propósito para os Santos milagreiros. O que é preciso é ser-se grande perante Deus!
O dia encolhe-se, limpa-se a noite. As estrelas pirilampam-se depois do luar, as fogueiras do arraial significam mistério. Devia ser assim no tempo dos santos medievais -- estamos sentados a admirar a bacanal, na outra ravina da costa, mais aplainada, o espectáculo é de único. Ranchos por toda a parte a cantarem, a dançarem ao som da concertina do conjunto de tocadores. Um alto-falante vomita danças espaçadas, lembra estúpidos de civilização. As bandas tocam mais forte -- bebe-se agora um tinto magnífico e o fogo sobre no alto colorindo uma natureza parda de rocha. O panorama tem majestade. O povo ali não se abana de artimanhas, é um sim de fé e de borga.
Em S. João d'Arga não existem casas -- há a capela, e à volta o quartel, nome pelo qual se chama a uma barraca onde dorme a malta bem empilhada. Mas ninguém dorme -- não se pode dormir, a noite e as fogueiras altas de cada ninho de pedras raro possibilitam sono -- dançam os ranchos, bebem como sequiosos do Nordeste brasileiro, tudo bebe mais vinho e tudo come pela noite fora. Ninguém para -- vejo um embalar puro, sagrado, da gente que espera a primeira missa às cinco da manhã. Depois da comunhão tudo parte à debandada -- formam-se novamente os ranchos e ao nascer do sol o formigueiro movimenta-se de partida. Dá-se lugar a outros que vêm passar o dia 29 junto ao santo. Não durmo, olho para aquele mundo como quem mira uma reserva humana em papel selado. É tosco, primitivo, frascário, mas é puro, é português.




Páginas V, Lisboa, 1967 / Antologia, edição de Liberto Cruz e Madalena Carretero Cruz, Lisboa, 2009, pp. 89-94.
Nota: um texto muito sensorial e de grande mestria, como é apanágio do autor.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

#5 - QUASE UMA GLOSA (Eugénio de Andrade)

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Os olhos tinha-os azuis, de um azul que nunca distinguiu. Uns olhos que consumiu a sonhar. Sonhava impenitentemente porque, à sua roda, tudo morria à míngua de autenticidade. Isto lhe doía. Isto lhe doía mais do que a pobreza dos pescadores da Canteireira ou dos camponeses da Nespereira, a quem deu por inteiro a sua ternura -- tanta, que raras vezes, na nossa língua, ela terá crepitado assim, alta e sem mácula. Não são os pobres, na sua pobreza, os que mais se negam e se atraiçoam. Quem menos tem é quem mais perto está de se ter a si próprio. Isto sabia, por isso lhes envolvia os trapos com o calor dos seus olhos, ou se consumia a reinventar-lhes a trágica e grotesca morte de cada dia. O sonho é o seu reino: só aí ninguém abdicará da sua alma. Nele se refugia para ouvir um fio de água que não sabe bem donde discorre, de tal modo, em certos instantes, ele e a natureza são um acorde perfeito. Era uma fonte assim que procurava em cada homem, a fonte do ser, onde a transparência da água e o ardor do fogo se reconciliavam. Mas o homem negava-se ao acorde fundamental, a esta voz da origem, a única que o podia religar ao mundo. Salvo nos momentos privilegiados do amor, o homem era o que havia de mais errante na terra, em busca perpétua do seu próprio rosto. Com «a mentira entranhada na carne», a «alegria dos instintos» perdida, os seres, como as coisas, apodreciam -- «só mesuras, só baba, só rancor». O próprio amor era o que havia de mais frágil: um suspiro bastava para matá-lo. No deserto que criara, o homem era só abandono. Como escapar à miséria da sua condição? Deus teria um dia misericórdia do homem, como acreditava Pascal? Deus estava morto e o homem não nascera ainda. Ou teria já nascido? Cada deus que morre não é a anunciação do seu nascimento? Havia pois possibilidade do homem se erguer, de trapo em trapo, à luz do seu rosto, e usar o coração sem usura? Pois pode o homem nascer fora do nosso coração? Cada pergunta sua tropeçava no homem. E haveria outro esplendor por que perguntar, outra maravilha com que sonhar? Não, não havia. Fora do homem não há absolutamente nada. É por ele que grita, é por ele que sangra até aos ossos. Para que se desoculte, tome posse de si, e viva, «não como ser individual com nome no cadastro, e uma profissão -- mas como força e destino». No negrume procura ouvir os seus passos, mas na noite apenas ouve o caruncho a roer a madeira do seu coração. Que absurdo mundo este, onde o homem é só ausência do homem. Absurdo. Espesso. Opaco. Palavras! A inutilidade das palavras! De que lhe serviam essas, aí, de raiz amarga, que lhe vinham à boca a todas as horas? Palavras que perseguia na noite, ou o perseguiam, quem sabe? Que sonho, com elas, teciam ainda as suas mãos, essas mãos que tanto acariciaram a terra, e onde todo o espanto se refugiou? Era um poeta -- às palavras estava condenado (quero eu dizer: à inquietação que toda a palavra é), mas só elas o poderiam salvar. Só nas palavras as trevas do seu ser se abriam para a luz. E não era a luz toda a ternura do mundo? Por isso se lhes abandonava, com uma confiança que nunca dera à vida. Quando, oh quando poderia regressar ao azul limpo dos seus olhos, sem tropeçar na angústia mais viva? Que voz o poderia reconduzir aos dias em que a consciência de existir não era ainda a consciência de ser uma só e paciente espera da morte? Contra a morte só tinha as palavras -- as que lhe subiam à boca. Na «noite velha» cantava. Cantava para sua mãe que, debaixo da terra, talvez o ouvisse ainda; ai cantava para o Nel que, passados tantos anos, ainda via subir às figueiras, aos figos lampos para lhe dar; cantava para aquela velhinha que, lenta, lentamente, subia a ladeira apoiada numa bengala. Cantava para a transparência do mundo...
De Raul Brandão, pois foi dele que tentámos falar se poderia dizer o que ele maravilhosamente disse de sua mãe: gastou-se a sonhar. Alguns dos seus sonhos são ainda os nossos -- eis porque está tão vivo no nosso coração.







VV. AA., Raul Brandão -- Homenagem no Seu Centenário, Guimarães, Edição do Ciclo de Arte e Recreio, 1967, pp. 49-51.
Nota - Um notabilíssimo texto, impregnado do patjhos  da narrativa brandoniana.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

#3 - A "ESPANHA" DE ANTERO DE FIGUEIREDO (Rebelo de Bettencourt)

Esta «Espanha» de Antero de Figueiredo, não é a Espanha dos espanhóis nem a Espanha que nós vemos. É a Espanha que Antero de Figueiredo vê através da sua emoção de artista e da sua saudade portuguesa. Não é um livro de viagens comuns -- é um livro de viagens dum coração que vibra «ante a beleza novidade exposta aos olhos viandantes» para aprender a sentir melhor, com mais fina ternura, a beleza «bendita e louvada da terrinha de Portugal».

          Fui à França e «não» voltei francês;
          Fui à Espanha e «vim» português.

Depois das suas admiráveis «Jornadas em Portugal» -- Antero de Figueiredo escreve a «Espanha», que não é mais do que a continuação desse livro.
Na verdade a «Espanha» é a segunda parte das «Jornadas em Portugal». É a mesma emoção que aquece as páginas desses dois livros; é a mesma «paisagem interior» que nós vemos diante das duas paisagens -- a portuguesa e a espanhola. O próprio Antero de Figueiredo é quem nos vem confessar a sua sensibilidade nacionalista, primeiro com um terceto da «Corte da Saudade» de António Sardinha:

          Em todo o mundo há terra portuguesa,
          desde que a alma a tenha na lembrança
          e a sirva sempre com fervor igual,

depois com as palavras saídas da sua pena, dizendo-nos que «continua a ser, neste novo livro de «Jornadas» um faccioso português que viaja na sua terra, ainda quando viaja mais na linda terra alheia».
Antero de Figueiredo é um dos mais altos e mais belos prosadores, no melhor e mais nobre sentido. Não escreve mecanicamente, alinhando palavras mortas, que são sempre mais belas aos nossos olhos do que aos nossos sentidos. Para Antero de Figueiredo, escrever é sofrer a comoção de um povo, que é o nosso. Cada palavra portuguesa é um ser vivo, arrancado, a sangrar, do nosso próprio ser, morrendo... Em cada palavra da nossa língua está um pouco de nós -- não o nosso corpo, mas a nossa alma, e se não a nossa alma, a nossa dor... A palavra portuguesa é o nosso corpo imortal, porque é espírito. O corpo em que a nossa alma vive aprisionada e escrava -- morre e apodrece, é barro e torna-se em cinza, e a cinza em nada... O nosso corpo é pó, que a nossa alma agita por instantes, na frágil e curta vida, para ser arrastado mais tarde, na morte, pelo vento -- que talvez seja a alma das coisas...
Mas o corpo da palavra não morre, nem apodrece, nem o arrasta o vento. Nasce para não morrer. Não é argila, nem é carne, embora, como em carne viva, dentro dele se ramifiquem veias, e dentro das suas veias se ramifique e palpite, com o calor duma brasa, sangue vermelho, o nosso sangue, a arder na brasa da nossa dor.
Só escreve bem português -- não quem for procurar com cuidado e arte, aos nossos dicionários, as palavras mais belas, mas quem for buscar, numa hora alucinada e inspirada de sofrimento e tortura, ao coração da nossa língua, as palavras mais sentidas, aquelas que a nossa comoção inventou e sofreu.
Porque é que quase todos os livros morrem e esquecem, logo que morrem os seus escritores? Porque foram escritos e pensados com as palavras dos «dicionários», e se muitos deles o não foram, foram somente molhados com uma emoção «pessoal». Só ficam os livros em que as palavras não foram rebuscadas «materialmente» nos catálogos, mas aquelas que foram procuradas «espiritualmente» na alma e na emoção do povo.
Cada palavra é um ser vivo e perfeito, com uma alma lá dentro: a nossa. Amemos por isso a língua portuguesa -- espírito gentil da nossa raça, e amêmo-la enternecidamente, como a nós mesmos se como o nosso mais rico e sagrado património, porque cada palavra que desaparece é um pouco de nós mesmos que vai também morrendo.
Dos prosadores que eu mais amo, por neles, em cada palavra sua, sentir Portugal -- no povo, na dor e na paisagem -- são Afonso Lopes Vieira, em que cada palavra é um ritmo, e cada ritmo o eco duma voz; Aquilino Ribeiro, em cujas páginas, ora cruéis e amargas, ora alucinadas, ora líricas, tumultua e delira, escaldante, o sangue sensual, perverso, bravio, mas humano, da gente da Beira; Carlos Malheiro Dias, continuador, mas com outro estilo, da elegância de Eça de Queirós, e Antero de Figueiredo que acaba de completar e apurar todas as suas faculdades de prosador e toda a sua sensibilidade portuguesa.. Escrever português não basta. É preciso que dentro de cada palavra se sinta a nossa alma lusíada. Mesmo na mais pequenina palavra deve sentir-se sempre um bocadinho de Portugal.
Antero de Figueiredo escreve para os nossos ouvidos e para a nossa alma. A sua prosa perturba-nos, enleva-nos, com a música das palavras e com o «interior» dessas palavras. Ler as páginas desta adorável «Espanha», em que perante a beleza enlevadora e alheia, se sente sempre a saudade de Portugal -- é pôr o ouvido na nossa paisagem e ouvir, comovida e estranha, a voz do nosso povo.
Dois trechos de «Espanha» maior alvoroço, inquietação e doçura puseram a minha sensibilidade: -- «A Vala dos Mortos», em Roncesvales, e a procissão do «Viático» que Antero de Figueiredo viu, do terraço dum solar.
«A vala dos mortos» é uma página alucinante. Fialho, que escreveu a «Ruiva» e «Os Ceifeiros», se fosse vivo, invejá-la-ia. Alucina, esmaga-nos, enche-nos de terror e espanto. Perturba e domina. Quando acabamos de ler essas páginas formidáveis -- sentimos a nossa alma amarfanhada, contorcida de pavor misterioso.
Já a Procissão do «Viático», numa noite calma e enternecida, põe uma nota de ternura a religiosidade no nosso coração. Antero de Figueiredo enche de poesia e perfume essas páginas do mais puro lirismo. Mais do que nunca Antero de Figueiredo é o escritor português, porque o escritor dum povo é sempre o seu intérprete. Pela pena dum escritor deve passar sempre a voz da sua gente. E é a alma da nossa gente, é a «terrinha» louvada e bendita de Portugal -- que nós sentimos vibrar perante a beleza alheia. 



Rebelo de Bettencourt, A Vida das Imagens, Lisboa, Ressurgimento, 1928, pp. 23-27.
Nota - Nacionalismos à parte, trata-se de uma esplêndida crónica de Rebelo de Bettencourt, homem do Portugal Futurista, mais tarde abraçando o nacionalismo mais conservador e católico, tal o de Antero de Figueiredo. A exaltação da palavra é absolutamente extraordinária: «Cada palavra é um ser vivo e perfeito, com uma alma lá dentro: a nossa.»



quinta-feira, 7 de julho de 2016

#2 - REVISÃO - ANOTAÇÕES À MARGEM DA VIDA QUOTIDIANA (José Bacelar)

Prefácio - 1 - Uma máxima não pretende defender um ponto de vista ou indicar uma direcção; uma máxima constata, simplesmente. Não é pois um género actual.



José Bacelar, Revisão -- Anotações à Margem da Vida Quotidiana, Lisboa, Portugália Editora, 1935, p. 5.

Comentário - José Bacelar, um moralista à antiga e à francesa. Arte de pensar (n)o cerne, ainda hoje menos actual, pois que parecemos caminhar, nos que às Humanidades respeita, para um novo período em que o pensar se atomiza em círculos cada vez mais restritos. Como, na Idade Média, nos mosteiros.