quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

"Anhanguera (não) sou." (James Anhanguera)

Anhanguera (não) sou. Vicção: Bartolomeu Bueno da Silva foi português q viveu no século XVII europeu & comandou uma expedição bandeirante ao território americano inexplorado pelos brancos para lá dos limites permitidos aos portugueses pelo tratado de Tordesilhas.
Essas incursões no coração do continente eram muito frequentes nessa altura. Entradas partidas do Rio & bandeiras de São Paulo foram os primeiros contatos dos lusitanos com a anti civilização da selva tropical sul-americana, q alargaram o seu espaço de dominação cada vez mais paralém do limite acordado pelos almirantes ibéricos no tratado do fim do séc. XV.
Dominação e exploração são palavras boas para definir a consequência do nascimento da colônia imperial do Pau Brasil, cor fogoembraza no imenso verde da mata virgem, «primitiva» como reza a História oficial branca. História q descreve o nascimento da multinação brasileira com o alargamento progressivo das suas fronteiras -- d Ilha de Vera Cruz e Terra de Santa Cruz a Brasil -- como se fala da distância entre a luz e as trevas, para traz ou para a frente da (agri)cultura cristã dos marinheiros & comerciantes europeus as incontáveis agriculturas celestes da civilização intemporal do cipó.
O filme Aguirre, o conquistador, d W. Herzog, narra a viagem ao interior q corroía os colonos encuanto conquistavam horizontes q a sua vista cansada da civilização ocidental do medo mal descortinava. Ali, no inferno temido, caminhavam ao encontro do paraíso perdido, aqui. E desencontravam-se no cruzamento entre a sua imaginação e o real, entre o seu real e o fantástico: a imagem pura. Contra o cemitério d palavras crescente no velho continente: a loucura, o puro ser, a vida no fim da morte & na cabeça, pela boca, olhos, narinas e orelhas, como diria Caetano Veloso, os arquétipos da civilização do metal, luz do sol (da) sua vida.
Duas realidades distintas num diálogo d surdos: uma tentando sobrepôr-se à outra sem pensar compreendê-la, destruindo-a para nela criar o seu tesouro e construir a sua floresta d metal. Durante dez anos, numa viagem pelas terras do interior onde viria a ser fundado o Estado d Minas Gerais ao longo de parte da q hoje é chamada a Região Centro-Oeste, Fernão Dias Pais Leme e a sua patrulha d quatro mil bandeirantes procuraram mitológicas esmeraldas. Morreu d regresso a São Paulo com uma carga d pepitas verdes q imaginara as outras pedras mais preciosas e ficou na memória & num poema d Olavo Bilac como "O Caçador d Esmeraldas". Depois dele surgiram, para lá d a serra da Mantiqueira, pelos infindáveis montes do actual Estado d Minas, as brancas cidades barrocas d ouro e pedras preciosas feitas daquela terra rica, sobre ela e contra ela construídas.
Durante a sua incursão, o capitão d bandeira B. B. da Silva, outro Fernão Dias ou Aguirre mitológico encontrou mina d ouro em território sob controle d uma tribo aborígene. Perante a resistência índia em possibilitar a exploração dos desconhecidos d fartas barbas e roupas brilhantes para quem sabiam ouro ser sistema, pretexto muito forte para ficar, veio ali mesmo, rápido, o ardil: com aguardente, Bartolomeu lança fogo à água d um recipiente para grande espanto dos nativos, q mistérios desses tinham só na imaginação dos deuses. Aos olhos dos portugueses era a luz do seu conhecimento cristão sobre o primitivismo e obscurantismo pagão. «Anhanguera! Anhanguera!» gritavam os índios ante a visão da carantonha diabólica d B. B.  atrás do fogo impossível.  E o sage  português ficou para o vulgo como Anhanguera (coisa superior, do outro mundo -- em tupi-guarani) e permanece na galeria dos audazes q alargaram as fronteiras... do Brasil. James Anhanguera (não) sou, pois.

Corações Futuristas, Lisboa, A Regra do Jogo, 1978

Nota - Anhanguera não é, sequer brasileiro, mas português, talvez de gema -- ou da gema, para manter o tom. Prefácio extraordinário a um livro comprado e lido por mim em '82, 18 anos tenros. Notas sobre música popular brasileira é o subtítulo. Pela amostra pode-se intuir toda sua a bela pinta, a bem merecer reedição & possível actualização. 


sábado, 16 de fevereiro de 2019

"Num árido e abrupto vale" (Rui Chafes)

Num árido e abrupto vale, habitado apenas pelo rumor longínquo do rio lutando para conseguir passar entre as estreitas fragas, uma voz disse-me que só estamos aqui de passagem, que a nossa estadia na terra é temporária. Sentado nas pedras, aprendi que essa voz, atravessando aquela solidão arcaisca e silenciosa, era o próprio rio, imparável.

«O perfume das buganvílias», Entre o Céu e a Terra (2012) 

Nota - «O perfume das buganvílias» compõem com «A história da minha vida» o díptico deste livro, um dos mais belos que se publicaram na nossa língua.

domingo, 20 de janeiro de 2019

José Rodrigues Miguéis, UMA FLOR NA CAMPA DE RAUL PROENÇA (1979)

«Na curta viagem do comboio suburbano, escutando a nossa conversa, a menina, que não teria dez anos e veio a morrer de tuberculose tempos depois, fitava-me sem falar, com uma expressão de angústia infantil nos grandes olhos claros, ao mesmo tempo que em vão puxava para baixo, nos joelhos friorentos, a barra do vestidinho demasiado curto.»

Alexandre Babo, RECORDAÇÕES DE UM CAMINHEIRO (1993)


«O António Pedro, um bocado na senda do Dalí, garantia ter recordações do útero materno.»

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Ferreira de Castro, «Delfim Guimarães» (1934)


«Uma mão que se apertou, umas palavras que se trocaram, uma amizade que aflorou, aqui, ali, a norte, a sul, neste país, neste e naquele continente, para cá e para lá dos oceanos.» in A Unidade Fragmentada. Dispersos de Ferreira de Castro (1996), ed. Ricardo António Alves, separata de Vária Escrita i#3

domingo, 13 de janeiro de 2019

José Gomes Ferreira, A MEMÓRIA DAS PALAVRAS (1965)

«Cuido não anda longe da verdade se afirmar que a minha Aventura Poética começou aí por volta de 1908, tinha eu os meus oito anos, no dia em que reparei (ou procedi como se reparasse) na existência das palavras, extraídas da vaza da algaraviada comum por homens estranhos, incumbidos da missão especial de dizerem o que mais ninguém ousava.» 

Reinaldo Ferreira (Repórter X), MEMÓRIAS DE UM EX-MORFINÓMANO (1933)

«Mesmo antes de despertar -- um sonho me alvissarou que era hoje; um sonho em contorções e desesperos de pesadelos; seringas que se quebravam nas mãos, agulhas que me fugiam por entre os dedos, frascos de droga que se esvaziavam, por diabólico ilusionismo -- no próprio instante da picada.» 

Ferreira de Castro [MEMÓRIAS INÉDITAS ] (1931)

«Sentei-me a uma das carteiras e, não tendo coragem de levantar os olhos, fixei-os no abecedário, que crescia e se deformava constantemente.» 

Vitorino Nemésio, CONHECIMENTO DE POESIA (1958)

«Ninguém me pode impedir de ter conhecido a Poesia, embora com abuso e violência.» 

Ferreira de Castro, OS FRAGMENTOS (póst., 1974)




«Volto os gavetas sobre a minha mesa de trabalho, como se nela virasse o açafate doméstico, contendo apenas migalhas dos dias vividos, de que se aproveitam somente as aspirações e os sonhos.» 

Conde de Ficalho, «Cartas do Campo» (1888)

«Os ricos e os elegantes foram para Sintra, ou para uma praia qualquer, continuar a vida de Lisboa: as carruagens conhecidas cruzam-se no passeio da tarde, como se cruzavam durante o inverno na Avenida; e à noite, as mesmas soirées reúnem as mesmas pessoas, com os mesmos flirts, e a mesma ponta de má língua -- que, no fim de contas, sempre é uma consolaçãozita na vida.» O Repórter, 4 de Setembro de 1888, Dispersos (póst. 1998)  (edição de João Forjaz Vieira)

Maria Velho da Costa, O MAPA COR DE ROSA (1984)

«Toda, toda a escrita é compensatória de um silêncio.» 

Adalberto Alves, ORIENTE DE MIM (1992)


«A hipnose das sociedades ocidentais, rastejando em direcção ao "ter" e ao "produzir", repugna-me, sempre me repugnou, profundamente.»

António Cartaxo, AO SABOR DA MÚSICA (1996)

«Na madrugada de Londres, numa noite de Janeiro de 1965, ao som opaco de tambores, ouvem-se passos lentos e cadenciados que vão tomando conta do murmúrio da imensa cidade adormecida.» 

Jaime Brasil, O CASO DE "A INFANTA CAPELISTA" DE CAMILO CASTELO BRANCO (1958)


«A confusão estabelecida pelos "entendidos" em camilografia, em geral simples camilómanos, acerca da obra de Camilo Castelo Branco "A Infanta Capelista" é de tal ordem que os não iniciados nos mistérios da vida desse escritor dificilmente encontram o fio da meada, propositadamente enredada pelos camilófagos e "camelianistas".»