quarta-feira, 14 de setembro de 2016

#5 - QUASE UMA GLOSA (Eugénio de Andrade)

imagem
Os olhos tinha-os azuis, de um azul que nunca distinguiu. Uns olhos que consumiu a sonhar. Sonhava impenitentemente porque, à sua roda, tudo morria à míngua de autenticidade. Isto lhe doía. Isto lhe doía mais do que a pobreza dos pescadores da Canteireira ou dos camponeses da Nespereira, a quem deu por inteiro a sua ternura -- tanta, que raras vezes, na nossa língua, ela terá crepitado assim, alta e sem mácula. Não são os pobres, na sua pobreza, os que mais se negam e se atraiçoam. Quem menos tem é quem mais perto está de se ter a si próprio. Isto sabia, por isso lhes envolvia os trapos com o calor dos seus olhos, ou se consumia a reinventar-lhes a trágica e grotesca morte de cada dia. O sonho é o seu reino: só aí ninguém abdicará da sua alma. Nele se refugia para ouvir um fio de água que não sabe bem donde discorre, de tal modo, em certos instantes, ele e a natureza são um acorde perfeito. Era uma fonte assim que procurava em cada homem, a fonte do ser, onde a transparência da água e o ardor do fogo se reconciliavam. Mas o homem negava-se ao acorde fundamental, a esta voz da origem, a única que o podia religar ao mundo. Salvo nos momentos privilegiados do amor, o homem era o que havia de mais errante na terra, em busca perpétua do seu próprio rosto. Com «a mentira entranhada na carne», a «alegria dos instintos» perdida, os seres, como as coisas, apodreciam -- «só mesuras, só baba, só rancor». O próprio amor era o que havia de mais frágil: um suspiro bastava para matá-lo. No deserto que criara, o homem era só abandono. Como escapar à miséria da sua condição? Deus teria um dia misericórdia do homem, como acreditava Pascal? Deus estava morto e o homem não nascera ainda. Ou teria já nascido? Cada deus que morre não é a anunciação do seu nascimento? Havia pois possibilidade do homem se erguer, de trapo em trapo, à luz do seu rosto, e usar o coração sem usura? Pois pode o homem nascer fora do nosso coração? Cada pergunta sua tropeçava no homem. E haveria outro esplendor por que perguntar, outra maravilha com que sonhar? Não, não havia. Fora do homem não há absolutamente nada. É por ele que grita, é por ele que sangra até aos ossos. Para que se desoculte, tome posse de si, e viva, «não como ser individual com nome no cadastro, e uma profissão -- mas como força e destino». No negrume procura ouvir os seus passos, mas na noite apenas ouve o caruncho a roer a madeira do seu coração. Que absurdo mundo este, onde o homem é só ausência do homem. Absurdo. Espesso. Opaco. Palavras! A inutilidade das palavras! De que lhe serviam essas, aí, de raiz amarga, que lhe vinham à boca a todas as horas? Palavras que perseguia na noite, ou o perseguiam, quem sabe? Que sonho, com elas, teciam ainda as suas mãos, essas mãos que tanto acariciaram a terra, e onde todo o espanto se refugiou? Era um poeta -- às palavras estava condenado (quero eu dizer: à inquietação que toda a palavra é), mas só elas o poderiam salvar. Só nas palavras as trevas do seu ser se abriam para a luz. E não era a luz toda a ternura do mundo? Por isso se lhes abandonava, com uma confiança que nunca dera à vida. Quando, oh quando poderia regressar ao azul limpo dos seus olhos, sem tropeçar na angústia mais viva? Que voz o poderia reconduzir aos dias em que a consciência de existir não era ainda a consciência de ser uma só e paciente espera da morte? Contra a morte só tinha as palavras -- as que lhe subiam à boca. Na «noite velha» cantava. Cantava para sua mãe que, debaixo da terra, talvez o ouvisse ainda; ai cantava para o Nel que, passados tantos anos, ainda via subir às figueiras, aos figos lampos para lhe dar; cantava para aquela velhinha que, lenta, lentamente, subia a ladeira apoiada numa bengala. Cantava para a transparência do mundo...
De Raul Brandão, pois foi dele que tentámos falar se poderia dizer o que ele maravilhosamente disse de sua mãe: gastou-se a sonhar. Alguns dos seus sonhos são ainda os nossos -- eis porque está tão vivo no nosso coração.







VV. AA., Raul Brandão -- Homenagem no Seu Centenário, Guimarães, Edição do Ciclo de Arte e Recreio, 1967, pp. 49-51.
Nota - Um notabilíssimo texto, impregnado do patjhos  da narrativa brandoniana.